Mais de 60 baleias-jubarte foram avistadas na costa fluminense, nos últimos dois meses. O litoral do Rio de Janeiro é um corredor migratório, por onde passam anualmente animais dessa espécie, nos meses de junho e julho. Elas vêm da Antártica em direção às áreas de reprodução e cria de filhotes, no Nordeste brasileiro.

O corredor migratório tornou-se objeto de estudo, desde o ano passado, do Projeto Ilhas do Rio, que já monitora os cetáceos há mais de uma década, na região do Monumento Natural das Ilhas Cagarras (Mona Cagarras) e em seu entorno.

 

 

Segundo a coordenadora de pesquisa dos cetáceos do Projeto Ilhas do Rio, Liliane Lodi, o número de ocorrências dessas baleias no Rio de Janeiro vem aumentando ano após ano.

“É uma tendência, porque a população de baleias-jubarte em todo o hemisfério sul está crescendo. Isso tem sido observado no Brasil e na Austrália, com o fim da caça comercial. A população está voltando a se recuperar e o número de baleias tem aumentado”.

As expedições realizadas em alto mar pela equipe conduzida pelo Instituto Mar Adentro registram a fila de jubartes rumo à Região Nordeste e confirmam a presença da espécie no litoral carioca.

Nas últimas semanas, para surpresa da coordenadora Liliane Lodi, foi feito um registro inédito na área do Mona Cagarras: uma jubarte com um filhote recém-nascido, que recebeu o nome de Heloisa, em homenagem à Garota de Ipanema, Heloisa Pinheiro.

De acordo com Liliane, não é possível identificar o sexo dos filhotes e, por esse motivo, o nome escolhido pelos pesquisadores é uma mera brincadeira: “é uma brincadeira que os pesquisadores fazem para batizar os animais”.

Liliane destacou que o nascimento de uma jubarte em águas cariocas é um indicativo de que a costa fluminense pode vir a ser uma área de reprodução e cria dessa espécie de cetáceos, assim como Abrolhos, na Bahia.

O “corredor migratório” ainda é pouco estudado no Brasil. Nas saídas de campo de 2022, os pesquisadores avistaram, por 28 vezes, grupos de até sete animais. Em uma das saídas, observou-se um grupo com sete baleias-jubarte em associação com 30 golfinhos do tipo flíper interagindo pacificamente.

O mesmo aconteceu em 2021, quando 400 golfinhos foram vistos junto às jubartes. “Mesmo após tantos anos de pesquisa, é sempre uma emoção muito forte avistar esses animais. É como se fosse sempre a primeira vez”, salientou Liliane.

As análises das fotos mostraram que 18 indivíduos foram identificados individualmente este ano, através de marcas naturais. O padrão de coloração branco e preto da região inferior da nadadeira caudal é único para cada indivíduo e funciona como uma impressão digital ou código de barras. “Dessa forma, pode-se traçar o histórico de vida desses animais”, comentou a pesquisadora.

Os pesquisadores vão continuar monitorando as jubartes, porque as pesquisas com esses animais são de longo prazo.

“Vai ter continuidade no monitoramento do corredor, em 2023, porque são pesquisas de muito longo prazo. A gente precisa de muitos anos para ter resultados, para ver se o número tem aumentado, se elas continuam passando pela área ou não. Isso precisa ser monitorado ao longo dos anos”.

Os pesquisadores desconhecem o local por onde as baleias retornam das áreas de reprodução e cria em direção à Antártica. “A gente só conhece quando elas estão subindo. Quando elas estão voltando, provavelmente, o fazem por áreas muito oceânicas e muito afastadas da costa, que não envolvem a nossa área de pesquisa”. Não há registros desses cetáceos descendo do Nordeste brasileiro.

Há 10 anos, os pesquisadores do projeto monitoram os padrões de ocorrência, distribuição, comportamento e movimentos dos cetáceos. O estudo já registrou a ocorrência de seis espécies de cetáceos: baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae), baleia-de-bryde (Balaenoptera brydei), baleia-franca-austral (Eubalaena australis), orca (Orcinus orca), golfinho-de-dentes-rugosos (Steno bredanensis) e golfinho-fliper (Tursiops truncatus).

Todas essas espécies se encontram no litoral carioca, especialmente no Mona Cagarras e na área compreendida entre a barra da Baía de Guanabara, praias da zona sul, suas ilhas e adjacências.

Essa região é reconhecida pela aliança internacional Mission Blue como um Hope Spot (ponto de esperança). Significa uma extensão com grande abundância e diversidade de espécies, habitats ou ecossistemas, com populações raras, ameaçadas ou endêmicas que carecem de proteção, pois constitui uma área crítica para a saúde dos oceanos.