A pandemia da Covid-19 tem evidenciado as fragilidades e a diferença da realidade de muitas famílias. Quando o assunto é estudo, longe da escola, sem as aulas presenciais, muitas crianças ficam sem amparo.

Até porque muitas não têm internet e alguns pais sequer sabem ler e escrever para ensinar os filhos dentro de casa. Em meio a essa realidade David Balbino Batista, de 19 anos, decidiu fazer a diferença na comunidade onde mora em Mogi das Cruzes.

A estudante Júlia Vitória Carvalho é uma das alunas do jovem. Ela sabe como é difícil estudar em casa sem internet. “É bem difícil, mas eu estou tentando. Eu faço com os livros que a escola deu e minha mãe vai buscar as lições na escola.”

Batista fez com que blocos de concreto virassem carteiras e uma porta de madeira, a lousa. A vontade de aprender das crianças e a de ensinar dele fizeram com que os escombros de casas demolidas virassem uma sala de aula improvisada. “Eu desde muito cedo brinco assim de ser professor. Tanto que os meus primos, tem cinco primos meu que posso dizer que aprenderam a ler comigo e hoje eles estão tudo com 16, 17 anos tão tudo grande. Aí na terça-feira retrasada duas meninas vieram ao meu encontro e perguntaram se eu dava aula de brincar com elas, de escolinha e na hora nem pensei mais nada. Falei ‘tá bom'”, lembra o rapaz.

David Balbino Batista não terminou o ensino médio. Ele largou a escola em 2019, depois da morte da avó. Mas sempre gostou de estudar, principalmente matemática. “Não tive mais cabeça para nada, eu desisti. Eu falava ‘eu não vou conseguir’ e eu fiquei parado.”

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E a cada dia a turma foi aumentando e o espaço improvisado ficou pequeno. Depois de uma semana dando reforço escolar para as crianças em escombros, a atitude do voluntário sensibilizou outros moradores. Agora o projeto do jovem professor ganhou um espaço maior, com cobertura, mesas, cadeiras e até mais voluntárias. “Eu ensino e aprendo com eles. Eu olho para o rosto deles eu vejo que eles estão sentido falta da escola”, diz o professor.

A auxiliar de desenvolvimento infantil Bruna da Silva Rosa é uma das voluntárias do projeto. Ela avalia que o projeto pode ajudar a comunidade no futuro. “Além de não ter acesso a internet, muitas mães têm dificuldade de ter um contato com a escola, de buscar as atividades para fazer impressa. E tem mãe que às vezes não sabe ler nem escrever aí fica difícil até para mãe ensinar o próprio filho. Eu acho que é uma ajuda muito importante para gente aqui da comunidade. Acho que unido a gente vai mais longe.”

Atualmente, ele tem quase 50 crianças que participam de aulas de reforço de matemática, português e artes. A tia do David também entrou de cabeça no projeto.

Enquanto o sobrinho compartilha conhecimento, ela foi atrás e conseguiu garantir a alimentação para os estudantes. “Muitas mães aqui não tem condições. Tem criança que chega, chega até antes do professor e eles fala ‘que vai ter no café da manhã, que vai ter na merendinha do almoço’. E de barriguinha vazia não flui né. Então é muito importante eles terem pelo menos um cafezinho da manhã. Os da parte da manhã eles tomam café, antes de ir embora almoçam. Os da parte da tarde chegam tomam um lanchinho e antes de ir embora já vão com a jantinha”, explica a tia de David, Gilmara Brito Silva.

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O professor planeja o futuro tendo os livros e alunos como companheiros. “Eu pretendo sim voltar meus estudos, terminar tudo. Fazer um curso e depois uma faculdade. Quero ser professor de matemática”, sonha David Balbino Batista.

A matéria é do portal de notícias G1.

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